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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Não dá para perder: conferências de Slavoj Zizek e David Harvey

Por Roberto Robaina, Presidente da Fundação Lauro Campos



"Um amigo de Zizek, mais velho que ele, e creio que um dos muitos inspiradores de sua obra, o filósofo marroquino-francês Alain Badiou, falava em quatro dimensões que uniam o desejo da filosofia e o desejo da revolução. Ele dizia, citando Rimbaud, que a filosofia era uma revolta lógica. Uma revolta lógica porque combina o desejo da revolução com o desejo da racionalidade. Uma revolução no pensamento e na existência, individual e coletiva. As quatro dimensões citadas por Badiou são o desejo da revolta, o desejo da lógica, o da universalidade e o do risco. Um revolucionário deseja que o povo se levante, se erga, mas quer que isso seja feito de modo racional e eficaz, não quer a barbárie e a mera fúria. Neste sentido exige uma forma de lógica histórica. Ele quer que seja um processo universal, internacional, não fechado em objetivos nacionais, raciais e religiosos. Por fim ele assume o risco de sua posição. Então, na ligação com a revolução, a filosofia não é um mero exercício abstrato. Já com Platão tratava-se de defender o diálogo, a linguagem, o direito à argumentação. Com Hegel e Marx a dimensão da revolução ganha escala. Quem puder ir, não pode perder a conferência de Zizek “ De Hegel a Marx…e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise”

São estes tais de tempos interessantes. Seguindo os argumentos de Badiou, o mundo contemporâneo, e falando aqui, sobretudo, do mundo ocidental, tem vários obstáculos e pressões contra desejos da revolução e da filosofia que mencionamos antes. Tal mundo é hostil à revolta. Ele nos diz que já temos a liberdade, que as mudanças devem ser graduais ou que devemos confiar que elegendo um presidente é suficiente. Nada de mudanças bruscas. Esta é sua disposição opressiva, impedir estas mudanças. Nada mais claro de que se trata de uma estrutura de poder que quer derrotar o pensamento dialético. Como está estruturada, apesar de muita ciência e tecnologia, nossa sociedade também é contrária à razão e à lógica. Sua dimensão é a dimensão ilógica da comunicação atual, deste aparato material, esta organização material de TV, rádio, Internet, dedicado ao esquecimento imediato, a um espetáculo sem memória, um presente perpétuo. O terceiro obstáculo é contra a verdadeira universalidade, já que nosso mundo tem apenas o dinheiro como forma material de universalidade, o equivalente geral definido por Marx. O resto é divisão de trabalho, especialização produtiva, fragmentação. Finalmente, contra o risco, somos ensinados a buscar segurança sempre, desde o início a segurança profissional, a necessidade do cálculo da segurança. Concordamos com todos estes bons argumentos de Badiou.

Mas desde 2011, com a revolução árabe, a chamada primavera que ainda segue seu curso, a pauta da revolução foi retomada com mais força num mundo ainda, é claro, dominado pelo capital. A irracionalidade deste domínio é enorme e tem armas eficazes. Mas mesmo os obstáculos de Badiou em alguns momentos são capazes de inverter o jogo, de contribuir para que saia o gênio da lâmpada.  Assim, a internet, embora não poucas vezes jogue contra a reflexão mais profunda, a reflexão do texto que exige mais tempo de leitura, mais profundidade, foi usada para que os ativistas adquirissem um nível de conexão nunca antes vista. Não foram poucas as mobilizações de massas que começaram pelas redes sociais. A internacionalização do capital tem promovido também a internacionalização de um nível de resistência crescente. A universalidade do dinheiro tem sido questionada por quem não quer que o mundo seja resumido à mercadoria. E quando ações tomam uma dimensão de massas e um radicalidade pouco usual, quando massas irrompem na cena pública, então todos os explorados e oprimidos podem apreender. Quantas lições nos foram dadas pelo povo da Tunísia, do Egito, da Grécia e da Espanha! Até a educação pela segurança, a busca por não se arriscar, quando o capital provoca desemprego e insegurança, tem permitido também um maior questionamento ao domínio do capital. Nada disso quer dizer que o caminho é fácil. Mas não há dúvida que o confronto entre a revolução e a contrarrevolução está ganhando contornos mais claros.

Se não bastasse Zizek, receberemos David Harvey. Este inglês que vive há mais de 40 anos nos EUA é um gênio da explicação da obra mais importante do marxismo: O Capital. Seus cursos para entender O Capital na Universidade de Nova York são um estouro. Não creio que tenhamos um curso melhor. Ajudar a trazer David Harvey para o Brasil é um orgulho para a Fundação Lauro Campos. Afinal, Lauro Campos foi sem dúvida um dos melhores, senão o melhor economista marxista do Brasil. Sua obra “A crise completa”, também editada pelo Boitempo, é a melhor explicação escrita em língua portuguesa acerca da dinâmica da crise do modo de produção capitalista. Lendo um livro que foi escrito em 1999 (editado em 2001), apreendemos os mecanismos que fazem da atual crise mundial a crise completa prognosticada por Campos. David Harvey explica como ninguém a obra que revela a lógica do capital, de suas contradições, do desenvolvimento destas contradições e das crises cada vez mais completas que elas carregam. A conferência de Harvey, Para Ler O capital, é óbvio, que também não dá para perder. Afinal, se estamos entrando num novo período revolucionário, de tempos interessantes, é porque a crise aberta em 2007 não é uma crise qualquer. Depois de quase 50 anos de acumulação quase ininterrupta do Capital, de ultrapassagem de seus próprios limites, finalmente o capital terá que prestar de modo mais sério contas ao trabalho real que ele pretende sempre negar."

Programação completa da viagem de Zizek e Harvey ao Brasil:

Porto Alegre (RS)
Conferência:

Debates Capitais recebe Slavoj Žižek – De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise
Conferencista: Slavoj Žižek
Data: 5 de março
Horário: às 19h
Local: Câmara Municipal de Porto Alegre
Endereço: Av. Loureiro da Silva, 255 – Centro
Inscrições serão abertas a partir do dia 20.02 (quarta-feira) e deverão ser realizadas pelo e-mail:zizek.poa@laurocampos.org.br.
A inscrição é gratuita. Vagas limitadas.

Conferência:
Para ler O capital
Conferencista: David Harvey
Data: 25 de março
Horário: às 19h
Local: Teatro da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS).
Endereço: Av. Ipiranga, 5311
Inscrições serão abertas a partir do dia 20.02 (quarta-feira) e deverão ser realizadas pelo e-mail:harvey.poa@laurocampos.org.br.
A inscrição é gratuita. Vagas limitadas.

REALIZAÇÃO | Boitempo Editorial, Fundação Lauro Campos, Emancipa e Câmara Municipal de Porto Alegre

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A renúncia do Papa tem um significado político

Henrique Carneiro - http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=975


A renúncia do Papa é apresentada como uma decisão pessoal, devido à idade. Evidentemente, é preciso buscar as razões de fundo para um gesto inédito nos anais recentes da Igreja e que enfraquece ainda mais a sua credibilidade.
Os pontificados ficam historicamente identificados com alguns dos fatos ou decisões mais importantes que marcaram esses períodos. O Papa Pio XII, contemporâneo do nazismo e aliado de Hitler na sua ascensão ao poder, ficou indelevelmente marcado por essa aliança. Mais no passado, o que resta na memória popular de Papas como Rodrigo Borgia, ou Alexandre VI, senão a reputação cruel e devasso, que nomeou o próprio filho Cesare Borgia, além de muitos outros parentes, como cardeais? De Júlio III, a nomeação como cardeal-sobrinho do amante de 17 anos, Innocenzo.
De Joseph Ratzinger, o Bento XVI, o elemento mais marcante de seu pontificado, antes da renúncia, parecia que iria ser a denúncia pública da pedofilia no clero. Poderá essa renúncia tirar o foco desse problema e sua sucessão lançar uma cortina de fumaça que oculte a série de escândalos?
Trago nestes breves comentários, de alguém que não é um vaticanólogo, apenas algumas evidências disponíveis para qualquer leitor de jornais de que essa renúncia não é um raio em céu claro. Que evidências são essas?
As de que o Vaticano viveu no pontificado de Bento XVI uma crise já antiga de perda de influência social e política, agravada pela perda da credibilidade moral com os escândalos de pedofilia. Mas ao se tratar dessa instituição, não se deve esquecer que ela é, do ponto de vista financeiro, uma das maiores multinacionais do planeta, com investimentos em bancos, corporações, reservas de ouro, etc. (MANHATTAN, 1983 mostrou a dimensão dessa fortuna).
No ano passado, a Igreja Católica viveu outra crise com as revelações de corrupção e negociatas feitas a partir dos documentos vazados pelo mordomo do Papa, no que ficou conhecido como Vatileaks. Dessa vez, a culpa não era do mordomo, que foi preso, processado, condenado e depois perdoado.
O Banco do Vaticano (o “banco mais secreto do mundo” como diz a revista Forbes (JORISH, 2012) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazista, por parte de Pio XII, mas, ainda antes disso, de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que concedeu ao Vaticano em 1929 a assinatura do Tratado de Latrão com o estado italiano.
Esse tratado, também conhecido como Concordata foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero. Só em 1978, houve uma alteração que tornou a Itália uma República laica e o divórcio foi aprovado.
Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicado em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam o valor de cerca de meio bilhão de libras esterlinas, embora o valor real permaneça secreto, apesar das denúncias recentes do jornal Guardian (LEIGH; TANDA; BENHAMOU, 2013).
Os interesses econômicos do Vaticano também estão sendo afetados pela crise global, o que levou inclusive que em 2012 ocorresse o maior déficit fiscal em muitos anos no Vaticano, de cerca de 19 milhões de dólares (VATICAN, 2013). Nessa crise também incide o custo financeiro com os processos por pedofilia.
Os escândalos de pedofilia, além do custo moral, têm um preço econômico com os processos e indenizações, que só nos EUA, chegaram a três bilhões de dólares em mais de três mil processos abertos, com 3.700 clérigos denunciados, 525 presos, a maioria dos quais condenados e cumprindo penas.
Desde os anos de 1950 até hoje cerca de seis mil sacerdotes já foram denunciados nos Estados Unidos por abusos sexuais contra crianças, o que equivale a 5,6% do total do clero estadunidense (SCHAFFER, 2012). Figuras de proa da Igreja, como o líder dos Legionários de Cristo, no México, Marcial Maciel forma denunciados por pedofilia e outros abusos.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A conversão política também tem impacto moral


Roberto Robaina
Roberto Robaina
O governador Tarso Genro escreveu um longo artigo sobre as relações entre a moral, a ética e a política. Começa suas considerações mencionando as experiências de Robespierre e dos bolcheviques russos. Como qualquer pessoa que acompanha a política hoje sabe que o PT atualmente não tem absolutamente nada que ver com as ricas experiências da revolução francesa, tampouco com a revolução russa, vou me poupar de acompanhar Tarso em suas andanças por outros tempos. Concentro-me na parte para a qual ele realmente quer nos levar em seu esforço. Diz claramente:

“Um dos debates morais, de influência direta na política, que se trava aqui no Brasil no momento, está aberto pelo moralismo udenista, tanto promovido pela extrema esquerda anti-Lula, como pelo conglomerado demo-tucano. Trata-se da questão relacionada com a política de alianças, ou seja, a demonização do PT pela sua “abertura” na política de alianças. O ataque centra-se, principalmente, na consideração que o PT relaciona-se – para sermos delicados – com grupos e pessoas que tem métodos não republicanos de participação na gestão do Estado”.

Vamos antes acertar as palavras. Reconhecemos que o PSOL é um dos endereços que Tarso tenta criticar. Mas Tarso afirma, sem demonstrar, que somos a “extrema-esquerda”. O mais correto é que somos um partido de esquerda coerente. Tampouco é certo dizer que demonizamos o PT. Denunciamos, sem dúvida, as alianças que este partido tem feito. Mas usar a expressão demonizar é mais uma tentativa de desqualificar os críticos, já que identifica a política com ausência de racionalidade. E argumentos racionais sobram para desmascarar o PT. Finalmente, tenta comparar nossa política com o udenismo. Ora, esta é de longe a mais desqualificada afirmação. O udenismo representou uma política burguesa de direita contra Getúlio Vargas. Onde, quando, em que momento o PSOL teve uma política no sentido de apoiar golpes de direita contra o governo?

Somos o partido, por exemplo, que tem em sua trajetória uma luta clara contra o PSDB. No Rio Grande do Sul foram as ações do PSOL combinadas com as ações dos trabalhadores em educação que provocaram o desgaste do governo Yeda, principal representante do PSDB na história do Estado. As ações do PSOL foram depois capitalizadas eleitoralmente pelo PT, que ganhou as eleições seguintes diante do enorme desgaste do PSDB. Tarso foi diretamente beneficiado deste chamado voto útil que foi dirigido ao PT para evitar qualquer possibilidade de continuidade do governo Yeda. Que Tarso no governo tenha rompido seus compromissos de campanha com os trabalhadores em educação é uma prova de que os que estão realmente próximos de políticas como as do PSDB são os líderes do PT, não os seus críticos realmente de esquerda. Os exemplos poderiam se multiplicar pelo Brasil afora. Nas últimas eleições municipais, o caso mais emblemático foi no Rio de Janeiro, onde um consórcio envolvendo o PMDB e o PT ( com o claro apoio da Rede Globo) derrotou o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, garantindo a continuidade de políticas que favorecem a especulação imobiliária e deixa soltos criminosos envolvidos com as milícias.

Mas Tarso é cuidadoso com as palavras quando se refere aos aliados do PT. Eles usam métodos ”não republicanos de participação na gestão do Estado”. Seus métodos são quais? Feudais? Monarquistas? Não, são os métodos corruptos de uma República burguesa decadente dominada pelo capital financeiro. É esta República que o PT resolveu defender. E para isso se alia a Renan Calheiros, Eduardo Alves, Paulo Maluf, José Sarney. Seus métodos “não republicanos” podem ser muito melhor definidos por adjetivos como corruptos e fisiológicos. Suas políticas são de defesa dos interesses mais reacionários, mais de direita, sempre contra os direitos e as reivindicações mais elementares do povo. E esta aliança tem sido feita não para defender as virtudes de um Robespierre ou os propósitos comunistas de um Lênin, mas para levar adiante um modelo que drena quase a metade do orçamento nacional para os cofres dos banqueiros. São alianças para defender o capitalismo brasileiro e a utilização de recursos públicos do BNDES para financiar a acumulação de capitais das oligarquias financeiras e industriais.

Nossos argumentos – racionais, portanto – nos levam a denunciar estas alianças e mostrar que por trás delas há a defesa dos grandes capitalistas e banqueiros. Por trás delas há uma clara tentativa da direção do PT de mostrar-se totalmente confiável para se apresentar como o principal gerente dos negócios capitalistas.

Mas Tarso ensaia um diálogo com a racionalidade quando diz: “ Eu penso que temos, sim, problemas sérios na composição das alianças, quanto à frequente ausência de parâmetros programáticos para realizá-las”. Então Tarso faz uma crítica ao PT ou faz uma autocrítica em relação ao seu próprio governo? O artigo não diz nada sobre isso. A afirmação serve apenar para que ele diga que “os argumentos moralistas da extrema esquerda são frutos de mero oportunismo político, pois compete ao partido hegemônico, nas alianças, impor seus critérios morais para tratar do interesse público nas coalizões de governo”. Ora, isso quer dizer o quê? Que as alianças sem parâmetros programáticos podem, apesar disso, ter critérios morais defensáveis porque o partido hegemônico, no caso o PT, pode impor seus critérios? Sendo a prática o critério da verdade, sabemos que não é isso o que ocorre. No caso do governo do Rio Grande do Sul, as ações do PTB certamente não estão de acordo com os interesses públicos da maioria do povo. Não é à toa que o vereador Cássio Trogildo está sendo acusado de usar recursos públicos da Secretaria de Obras do Município de Porto Alegre para conseguir votos na recente eleição municipal. O padrinho político de Cássio é secretário estadual de Tarso.

O fato é que a moral da direção do PT, faz algum tempo, não tem contradição séria com a moral e os interesses da classe dominante. Os dirigentes convertidos em defensores dos interesses burgueses se apressam também a ter uma vida de acordo com estes interesses. Não querem se sentir integrantes de uma classe social distinta, “um andar abaixo”. Anseiam pela mobilidade social. Querem sentir-se entre iguais quando compartem os hotéis e restaurantes de luxo com seus novos amigos. Sem a propriedade dos meios de produção, sem a posse de bancos, a corrupção e privilégios é um caminho do tipo atalho. Esta é a explicação para a multiplicação do patrimônio dos Antônios Palocci, dos Delúbios Soares e de centenas de outros dirigentes petistas. Os dirigentes do PT que assumiram responsabilidade na administração dos fundos de pensão fizeram este percurso de modo mais seguro e com mais sucesso. Foram os responsáveis por usar dinheiro público em associação com as grandes empresas privadas e na especulação financeira. Muitos deles eram os líderes sindicais bancários quando o PT ainda era um partido burocratizado da classe trabalhadora.

É certo, então, que o problema do PT está muito longe de ser apenas seus “métodos não republicanos” provados no escândalo do mensalão. Seu crime político é ter se convertido em defensor da classe capitalista. Junto com isso assumiu sua moral. E os seus métodos.

Roberto Robaina é presidente da Fundação Lauro Campos e membro da Executiva Nacional do PSOL

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Democracia: um conceito em disputa

Carlos Nelson Coutinho


No mundo atual, boa parte da batalha das idéias que se trava entre as diferentes forças sociais centra-se na tentativa de definir o que é democracia, já que essa forma de regime político é hoje reivindicada por praticamente todas as correntes ideólogicas, da direita à esquerda. Ora, nem sempre foi assim. Há algumas décadas atrás, o pensamento explicitamente de direita — desde o catolicismo ultramontano até os diferentes fascismos — combatia abertamente a democracia; até mesmo o liberalismo, em boa parte de sua história, apresentou-se explicitamente como alternativa à democracia. Esta situação se alterou a partir da segunda metade do século XX. Por um lado, o fascismo praticamente desapareceu como força atuante no cenário político mundial; e, por outro, sobretudo a partir dos anos 1930, o liberalismo assumiu a democracia e passou a defendê-la, ainda que não sem antes minimizá-la, empobrecendo suas determinações, concebendo-a de modo claramente redutivo.  Assim, pelo menos nominalmente, hoje todos são democratas. 

Nesse sentido, devemos ter muita cautela, hoje, quando usamos a palavra “democracia”.  Um brilhante pensador francês do século XVII, La Rochefoucauld, tem uma bela definição de hipocrisia:  “Hipocrisia é homenagem que o vício presta à virtude”1. Ou seja, o fato de que todos hoje se digam “democratas” não significa que acreditem efetivamente na democracia, mas sim que se generalizou o reconhecimento de que a democracia é uma virtude. A hipocrisia consiste em que, com extrema freqüência, essa palavra — ainda que dita com ênfase — não significa absolutamente o que a história da humanidade e o pensamento político entenderam e entendem por democracia.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Morre aos 95 anos historiador marxista Eric Hobsbawm

Londres, 1 out (EFE). Do site do UOL
O influente historiador marxista Eric Hobsbawm, britânico de origem judaica, morreu nesta segunda-feira em Londres, aos 95 anos, confirmou sua família.
Hobsbawm morreu no começo da manhã no hospital Royal Free de Londres, onde era tratado de uma pneumonia, segundo a rede britânica "BBC".
Um comunicado de sua família informou hoje que Hobsbawm deixa "não só sua mulher dos últimos 50 anos, Marlene, seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também seus milhares de leitores e pesquisadores no mundo todo".
Entre suas obras mais destacadas, que influenciaram gerações de historiadores, estão "Era dos Extremos: o Breve Século XX: 1914 - 1991" e "Globalização, Democracia e Terrorismo".
O intelectual, que usou os princípios do marxismo para explicar o mundo atual, publicou seu último livro em 2011, sob o título "Como mudar o mundo".
Hobsbawm nasceu em Alexandria (Egito) em 1917, em uma família judia, e cresceu em Viena (Áustria) e Berlim (Alemanha) antes de se mudar para Londres em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder na Alemanha.
O intelectual estudou na Universidade de Cambridge e em 1947 se tornou professor na universidade londrina de Birkbeck, onde colaborou durante anos até chegar a sua presidência.

Confira entrevista concedida pelo historiador ao "Estadão" de São Paulo.

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Carlos Nelson Coutinho: "Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia"

Em homenagem a Carlos Nelson Coutinho, o blog do PSOL Pelotas reproduz uma entrevista que ele concedeu a Revista Caros Amigos.
Caros Amigos   
Ter, 02 de Fevereiro de 2010 12:22

Carlos Nelson Coutinho
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Nelson Coutinho, um dos intelectuais marxistas mais respeitados do Brasil, recebeu a Caros Amigos em seu apartamento no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, para uma conversa sobre os caminhos e descaminhos da esquerda brasileira, sua decepção com o governo Lula e as possibilidades de superação do capitalismo.
Estudioso de Antonio Gramsci, Coutinho defende a atualidade de Marx e reafirma o que disse em seu polêmico artigo "Democracia como valor universal", publicado há 30 anos: "Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia"

Hamilton Octávio de Souza- Queremos saber da sua história. Onde nasceu, onde foi criado, como optou por esta carreira ..

Carlos Nelson Coutinho - Nasci na Bahia, em uma cidade do interior chamada Itabuna, mas fui para Salvador muito pequenininho, com uns 3 ou 4 anos. Me formei em Salvador, e as opções que eu fiz, fiz em Salvador. Eu nasci em 1943, glorioso ano da batalha de Stalingrado. Me formei em filosofia na Universidade Federal da Bahia, um péssimo curso, e com meus 18 ou 19 anos sabia mais do que a maioria dos professores. Meus pais eram baianos também. Meu pai era advogado e foi deputado estadual durante três legislaturas da UDN. Publicamente ele não era de esquerda, mas dentro de casa ele tinha uma posição mais aberta. Eu me tomei comunista lendo o Manifesto Comunista que o meu pai tinha na biblioteca. Ele era um homem culto, tinha livros de poesia. Minha irmã, que é mais velha, disse que eu precisava ler o Manifesto Comunista. Foi um deslumbramento. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Aí fiz faculdade de Direito por dois anos porque era a faculdade onde se fazia política, e eu estava interessado em fazer política. Me dei conta que uma maneira boa de fazer política era me tomando intelectual. Aos 17 anos entrei no Partido Comunista Brasileiro, que naquela época tinha presença. O primeiro ano da faculdade foi até interessante porque tinha teoria geral do Estado, economia política, mas quando entrou o negócio de direito penal, direito civil, ai eu vi que não era a minha e fui fazer filosofia.

Renato Pompeu - Mas quais eram as suas referências intelectuais?

Morre Carlos Nelson Coutinho


Morreu na manhã de hoje o filósofo marxista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Carlos Nelson Coutinho. Uma das principais referências em Gramsci no Brasil, Carlos Nelson impactou o conjunto da esquerda em seu célebre artigo publicado em 1979 na Revista Civilização Brasileira: “A democracia como valor universal”. O escritor era filiado ao PSOL desde sua fundação.
Segundo comunicado da direção da Escola de Serviço Social da UFRJ, o velório será realizado no Atrium do Fórum de Ciência e Cultura devendo o corpo chegar por volta das 14:00 horas.
O PSOL registra com sentimento de pesar essa grande perda para a esquerda brasileira e mundial.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

IMPUNIDADE PARA QUEM?


Por Heloisa Helena

Os velhos humanistas espanhóis propagavam em belo enunciado que as leis ao serem aplicadas deveriam ser flexíveis para os fracos, firmes para os fortes e implacáveis para os contumazes. Na realidade, dos nossos tristes e violentos dias, os fracos enfrentam o rigor das leis ou a própria barbárie em que eles estão inseridos enquanto que os poderosos e contumazes sempre conseguem usufruir da flexibilidade da legislação e das benécias do poder para consolidar a vergonhosa impunidade. Vez ou outra – tipo 1 em 1 milhão - é que um desses poderosos é condenado até para salvaguardar o próprio sistema e sua podridão! Em outro texto – antigo e bastante atual – o Pe. Antonio Vieira alertava que até Jesus tratava de forma diferenciada o ladrão pobre do ladrão rico... Para Dimas - pobre e por isso mesmo crucificado com Ele e que nada tinha a restituir - o perdão imediato em “Estarás comigo hoje na Casa do meu Pai!”... Para Zaqueu - rico não por trabalhar, mas por muito roubar - o perdão só veio mesmo quando ele se assumiu como ladrão e se comprometeu a restituir quadruplicado o que tinha roubado! O texto é de 1655, mas muito atual ao mostrar a metodologia dos “príncipes” que conjugam de todas as formas e modos o verbo roubar e costumam não restituir o dinheiro público vorazmente roubado e até ousam restituir aos cargos aqueles igualmente mal acostumados na conjugação do tal verbo. Segundo o referido Padre vão todos para o inferno e eu sempre fico a me perguntar se haverá braseiro suficiente pra tanto político cínico e ladrão... por isso prefiro lutar para que essas excelências delinqüentes sejam devidamente condenados, como manda a legislação em vigor no país, na experiência terrena mesmo!
Mas analisemos a situação concreta – e alternativas de reversão – de quem está sendo cotidianamente condenado de forma implacável, sem julgamento, sem conhecimento das motivações e vivenciando as penalidades, sem possibilidade de superação dos dramáticos momentos do cotidiano e sem mecanismos objetivos de ressocialização se já formalmente encarcerados. Existem milhões de seres humanos em nosso país (Alagoas ostenta os piores indicadores sociais) que nasceram em comunidades vulneráveis socialmente nas periferias e são condenados à miséria humana (que é infinitamente mais infame que a pobreza absoluta). Foram condenados a nascer em condições absolutamente precárias - e se não foram jogados numa calçada em noite fria ou numa lata de lixo – foram condenados a ter como chão para suas brincadeiras os esgotos a céu aberto... Foram condenados a morar num casebre sem lençóis limpos e perfumes delicados, compartilhando camas com adultos onde a sexualidade precoce é estimulada ou a maldita iniciação sexual é ditada pelo abuso e exploração na pedofilia... Foram condenados a não manusear a textura dos papéis de livros cheios de estórias e desenhos maravilhosos que poderiam até encantar e suavizar as suas próprias histórias dilacerantes de dias e dias de gritos, espancamento, alcoolismo e outras drogas, destruição de laços afetivos familiares e tantas outras situações angustiantes... Foram condenados a perderem seus nomes e a ingenuidade da identidade infantil, pois logo cedo foram “incluídos” como aviãozinho, fogueteiro, mula do pequeno e maldito tráfico de drogas – conduzido por pequenos bárbaros - para fomentar a imensa riqueza de uma canalha muito rica e poderosa, que vive muito distante das favelas e movimentam bilhões de dólares com as drogas psicotrópicas lícitas ou não... Foram condenados nos presídios imundos a se tornarem depósitos de AIDS, tuberculose, hepatites, hanseníase e a serem estuprados e violentados na sua dignidade pelos chefes dos presídios - que já barbarizados pela vida - criam verdadeiras “escolas” de crimes e perversidades para a grande maioria que lá está por ser pobre e por ter praticado pequenos delitos e acaba saindo do cárcere com “diploma” de assassino potencial.
Quais as opções a serem assumidas e implementadas por uma sociedade que se apresenta como moderna e civilizada? Quais os verdadeiros compromissos de uma sociedade que se apresenta como democrática, mas admite de forma cínica e dissimulada a tirania da miséria e do sofrimento dilacerador? Quais os verdadeiros Projetos para minimizar a Violência em Prevenção – educação, música, cultura, esporte, emprego digno – e Repressão – com condições dignas de trabalho e salários para os trabalhadores civis e militares da área de segurança pública – e na Recuperação e Ressocialização – do tratamento dos usuários de drogas psicotrópicas até a capacitação profissional e inserção econômica... Quais as Metas e Prazos e Cronogramas para a implementação das Ações, Projetos, Leis? Volto a insistir na necessidade de implementação de Políticas Públicas voltadas para intervenções globais em comunidades vulneráveis socialmente antes que a indigência social e a miséria humana aniquilem as possibilidades, de talento e vida digna, para milhões de crianças e jovens que podem acabar vivenciando apenas o triste e perverso decreto das gerações perdidas. Sempre lutei muito por tudo isso – com Projetos, Emendas ao Orçamento, Propostas Concretas – mesmo sendo incompreendida pela inocência de alguns e atacada pelos sórdidos vigaristas das gangues políticas que não aceitam conviver com quem não é domesticada pelo banditismo deles. Continuo lutando e acreditando que é possível resgatar o que de melhor e mais belo ainda possa existir especialmente nas crianças e jovens – em situações de risco - antes que a vida os condene à barbárie e se encarregue de afastá-los definitivamente da solidariedade, da bondade, da compaixão, do amor! Como dizia Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender e, se pode aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A LUTA DE CLASSES NA EUROPA E AS RAÍZES DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL (I)


François Chesnais   
Ter, 10 de Julho de 2012 12:38

François ChesnaisFrançois Chesnais
A crise financeira europeia é a manifestação, na esfera das finanças, da situação de semiparalisia na qual se encontra a economia mundial. Neste momento é sua manifestação mais visível, mas de modo nenhum a única. As políticas de austeridade aplicadas simultaneamente na maior parte dos países da União Europeia contribuem para a espiral recessiva mundial, mas não são sua única causa.
Foram eloquentes as manchetes da nota de perspectiva de setembro de 2011 da OCDE: "A atividade mundial está perto da estagnação"; "O comércio mundial se contraiu, os desequilíbrios mundiais persistem"; "No mercado de trabalho, as melhoras são cada vez menos perceptíveis"; "A confiança diminuiu", etc. Após as projeções de Eurostat, em meados de novembro, apontando uma contração econômica da UE, da qual nem a Alemanha escaparia, a nota da OCDE de 28 de novembro assinala uma "considerável deterioração" com um crescimento de 1,6% para o conjunto da OCDE e de 3,4% para o conjunto da economia mundial.
Compreensivelmente, a atenção dos trabalhadores e dos jovens da Europa está centrada nas consequências do "fim de caminho" e do "salve-se quem puder" das burguesias europeias. A crise política da UE e da zona euro, assim como as intermináveis vacilações do BCE acerca do financiamento direto dos países em maiores dificuldades, são suas manifestações mais visíveis. A tendência é endurecer as políticas de austeridade e montar uma operação de "resgate total" da qual não escape nenhum país. No entanto, a situação europeia não pode ser compreendida independentemente da consideração da situação da economia mundial em sua totalidade.

MALABARISTAS PROVERBIAIS: COMO OS EUROCRATAS ADIAM O PONTO CRÍTICO


SLAVOJ ZIZEK
ESPECIAL PARA A FOLHA

O resultado das eleições gregas de 17 de junho a vitória apertada do partido conservador Nova Democracia sobre o esquerdista Syriza e a formação de um governo de coalizão pró-europeu suscitou, previsivelmente, um gigantesco suspiro de alívio em toda a Europa: a catástrofe tinha sido evitada por pouco, o euro e a unidade europeia prevaleceram...
O que aconteceu, na realidade, foi que se perdeu uma oportunidade única para a Europa finalmente encarar a profundidade de seu impasse econômico e político. O suspiro de alívio queria dizer: evitamos despertar, podemos continuar a sonhar. Recentemente, Richard Quest, da CNN, propôs uma metáfora adequada para descrever esse sonhar quando comparou as autoridades europeias aos proverbiais malabaristas do circo.
Esses artistas talentosos que equilibram pratos giratórios na ponta de bastões, aumentando sempre o número de bastões, correndo de um para outro e empurrando para que continuem girando, sempre conscientes de que, se girarem rápido ou devagar demais, um dos pratos cairá ao chão e se espatifará. É exatamente isso o que temos na Europa hoje. Só que os artistas são o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, o líder do grupo do euro Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso etc., enquanto os pratos a girar são a Grécia, os bancos espanhóis, os deficits italianos, os títulos governamentais europeus e a chanceler alemã Angela Merkel. A cada dia parece que há mais pratos girando, e os malabarismos dos artistas ficam mais frenéticos enquanto eles correm de um lado a outro, sempre proclamando que o show está prestes a acabar. Não é o caso, infelizmente. É provável que os malabarismos continuem por algum tempo ainda.
Girar pratos é o que os eurocratas de Bruxelas vêm fazendo: acrescentam interminavelmente novos pratos para adiar o ponto crítico, tornando o equilíbrio cada vez mais frágil e mais apoiado em ficções financeiras.
O Syriza foi acusado de promover ficções de esquerda, mas o plano de austeridade imposto por Bruxelas é que é um belo exemplo de ficção: num gesto estranho de faz de conta coletivo, todo mundo sabe que esses planos são fictícios, que o Estado grego jamais poderá saldar a dívida, e todo mundo ignora a insensatez óbvia da projeção financeira sobre a qual os planos são baseados. Por que, então, Bruxelas impõe esses planos?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lenin, ou a Política do Tempo Partido, de Daniel Bensaïd


LENIN, OU A POLÍTICA DO TEMPO PARTIDO


Na onda de anti-marxismo que acompanhou a ofensiva liberal dos anos 1980, a estatura de Marx permanecia suficientemente imponente para que pudéssemos ter certeza de um retorno à graça, de uma reabilitação editorial e acadêmica, com a condição de ser numa versão light, sem o lastro de sua carga subversiva. Podia-se mesmo esperar alguma indulgência com relação à Trotski, em reconhecimento dos talentos literários atestados por sua História da Revolução Russa, e em função da fascinação estética que suscita seu destino trágico de vencido.
Mas Lenin! Seu papel é sem dúvida o mais ingrato. O do vilão da história, morto cedo demais para ter conhecido os processos e o exílio, suspeito de ter vencido, vítima de um culto de que foi ídolo, apesar de si mesmo. Quem irá ainda meter seu nariz nos quarenta volumes encadernados das Edições de Moscou, com cheiro de cola de peixe? Quem irá mergulhar nesta sucessão de artigos, de notas de jornalista, de escritos de luta e de circunstância, de polêmicas cujos destinatários na maior parte caíram no esquecimento?
Não há quase grandes livros nesta compilação de brochuras, de artigos e de textos militantes. Apesar de sua extraordinária profundidade para uma obra de juventude, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia muito cedo cansará o leitor submerso nas estatísticas áridas dos zemstvos. Com suas obras, e sua acuidade teórica laconicamente exercida nas margens da Lógica de HegelLenin não está prestes a ter as honras da sua publicação pelas Edições La Pléiade.

terça-feira, 3 de julho de 2012

BRASIL: DE EMPRESA INTERNACIONALIZADA A UMA SOCIEDADE BIOCENTRADA

Leonardo Boff   
Leonardo BoffLeonardo Boff
Há interpretações clássicas sobre a formação da nação-Brasil. Mas esta do cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima é seguramente singular e adequada para entender o Brasil no atual processo mundial de globalização: A Refundação do Brasil: rumo a uma sociedade biocentrada (Rima,São Carlos 2011). Seu ponto de partida é o fato brutal da invasão e expropriação das terras brasileiras pelos "colonizadores" à base da escravidão e da superexploração da natureza. Não vieram para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Ela resultou da articulação entre reinos, igrejas e grandes companhias privadas como a das Índias Ocidentais, Orientais, a Holandesa (de Mauricio de Nassau), com navegadores, mercadores, banqueiros, não esquecendo as vanguardas modernas, dotadas de novos sonhos, buscando enriquecimento rápido.
Ocupada a terra, para cá foram trazidas matrizes (cana de açúcar e depois café), tecnologias modernas para a época, capitais e escravos africanos. Estes eram considerados "peças" a serem compradas no mercado e como carvão a ser consumido nos engenhos de açúcar. Com razão afirma Souza Lima: "o resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir à economia; no Brasil nasceu o que se pode chamar de 'formação social empresarial".